de O GLOBO
MEU MUNDO EM PERIGO
A ideia era fazer um filme sobre famílias desajustadas, mas o que se vê em “Meu Mundo em Perigo” é um mergulho na alma de pessoas em situações-limite que se aproximam na busca por uma saída para sua angústia. Melhor para paulistas, cariocas e moradores de outras poucas cidades, que, a partir do dia 17 de dezembro, poderão conferir nos cinemas o melhor filme do Festival de Brasília de 2007 segundo a crítica, vencedor também nas categorias Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante graças às atuações de Eucir de Souza e Milhem Cortaz.
“O Brennand, artista plástico pernambucano que admiro muito, diz que, quando a cerâmica entra no forno, já não é mais dele, uma vez que ele não tem mais controle sobre o que vai sair dali. Não pensei em fazer um filme sobre reconciliação, mas um que abordasse as questões familiares, pois é neste ambiente que as pessoas se mostram de forma mais verdadeira”, explica o diretor José Eduardo Belmonte, autor do também elogiado “Se Nada Mais Der Certo”.
A satisfação com o resultado se deve, entre outros, à convicção de que o acaso tem papel decisivo não apenas no processo de criação artística, mas na vida de cada um. É o que se vê em “Meu Mundo em Perigo”, em que a perda da guarda do filho para a ex-mulher, recuperada de problemas psiquiátricos, joga Elias (Eucir) em um abismo e o faz matar um senhor por acidente. Atormentado, ele encontra perspectiva em Ísis (Rosanne Mulholland), jovem bela e triste que fugiu de casa e abrigou-se em um hotel. Aos poucos, eles constroem um relacionamento até o momento em que Fito, o filho do aposentado morto, atravessa o caminho dos dois.
O imponderável também permeou o processo de produção do longa, rodado com poucos recursos nas ruas de São Paulo em 2007. As cenas eram filmadas à medida que Belmonte e o dramaturgo Mário Bortolotto avançavam no roteiro. Por isso, os atores recebiam suas falas momentos antes de interpretá-las. Para Milhem, isso contribuiu para dar complexidade aos personagens.
“Foi caótico e, ao mesmo tempo, catártico. Uma das experiências mais intensas que eu tive no cinema, pois não sabia o que estava fazendo. Por isso, não tínhamos uma concepção prévia do personagem e chegávamos para filmar livres das emoções de outras cenas, o que foi muito bom porque não somos assim. A condução do Belmonte criou uma incoerência que é própria do ser humano”, lembra o ator, conhecido por ter vivido o comandante Fábio em “Tropa de Elite 2”.
Belmonte, que começará a filmar em janeiro a comédia “Billi Pig”, com Selton Mello e Grazi Massafera, conta que “Meu Mundo em Perigo” foi feito em “esquema de guerrilha” e sua única preocupação, naquele momento, era finalizá-lo. “Não pensava em distribuição, uma das primeiras coisas que faço nos projetos atuais. Por isso, o filme só está sendo lançado agora”, diz o diretor, que usaria menos closes e câmera na mão se fizesse o filme hoje.


